O embrutecimento das interações humanas é uma característica marcante dos tempos atuais, as principais forças atuantes na cultura estão despojando-se, cada vez mais, da clássica meta da excelência humana. A cultura dos pensamentos e sentimentos elevados (filosofia e belas artes) está sendo deixada em segundo plano enquanto os modernos padrões e referenciais sociais, que se organizam ao redor das celebridades midiáticas e dos produtores de conteúdos nas redes sociais, apelam para as baixezas humanas para alcançar sucesso. Assim, os gostos estão ficando induzidamente piores e a cultura declina das universalidades mais elevadas para o narcisismo pessoal. Ninguém contemplou tão bem as ambiguidades da natureza humana – sua finitude, miséria e fraqueza ao lado de sua duvidosa capacidade para a razão e a virtude – como Blaise Pascal, para quem “o homem é tão desnaturado que há em seu coração uma semente de alegria nisso”. Portanto, nada se mostra mais indispensável do que uma análise no interesse de compreender e expor à luz este aspecto sorrateiro da natureza humana que nos acossa com tanta veemência no tempo presente. A análise deste ensaio irá se debruçar sobre o fenômeno do egocentrismo humano buscando abranger uma significativa parte do seu vasto campo de manifestação na vida humana.

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As Armadilhas do Ego
O ego é este fenômeno esguio que nos compõe desde nossa própria constituição como indivíduos e que sempre tenderá a se apoderar do nosso ser sujeitando-nos a efeitos perniciosos do ponto de vista pessoal e ético. Egocentrismo será caracterizado neste ensaio como um modo de se relacionar com o mundo desmensuradamente centrado na própria substância pessoal em que ocorre um desdobramento estéril sobre si mesmo que se satura e obstrui do próprio conteúdo. Mais precisamente dizendo: trata-se de um movimento interior cerrado em si mesmo que faz franco antagonismo ao movimento de se disponibilizar para a alteridade do real. É este movimento sórdido que produz uma separatividade radical do indivíduo frente aos momentos de comunhão e unidade do Ser e o coloca sempre na eminência do erro. Soberba, orgulho, narcisismo, vaidade, presunção, entre outros compõem a vasta faixa de manifestação desta corrupção interior.
Immanuel Kant, em sua antropologia filosófica, afirma a existência de três tipos de egoísmo: o egoísmo lógico em que o “eu” considera desnecessário examinar a correção de seu juízo pelo entendimento dos outros; o egoísmo estético para o qual o próprio gosto basta na experiência do belo, e o egoísmo moral que, na sua concepção ética, “reduz todos os fins a si mesmo” e “não vê utilidade senão naquilo que lhe serve”, colocando o fundamento da sua vontade apenas na satisfação do seu interesse e felicidade pessoal. O ego forma uma camada de inautenticidade que pode ser facilmente denunciada e desmascarada por um observador externo, porém turva e desdenha a reflexão de indivíduo sobre si mesmo que já fora dominado inadvertidamente pelos seus efeitos.
Abordando o tema sobre outro aspecto, podemos acompanhar os conceitos gregos de moderação (sofrosine ou Σωφροσύνη) e excesso ou impureza (hybris ou ὕβρις) nos casos em que é retrato pela mitologia grega. Há um deles de particular interesse ilustrativo para a análise: Belerofonte. Herói que mata o tirano de Corinto e teve que se refugiar na casa de Praetos, rei de Tirinto, onde foi acusado injustamente por sua mulher de violá-la, sendo assim enviado por Praetos para ser assassinado por Ióbates, rei da Lícia. Porém, este ultimo decide, no lugar de o assassinar, submetê-lo a inúmeros desafios, com os quais conta com a ajuda da deusa Atena para ser bem sucedido. Insuflado pelos seus inúmeros êxitos e extremamente orgulhoso de si mesmo, perde a moderação do seu egocentrismo começando acreditar-se tão elevado quanto as divindades mergulhando, assim, em hybris e pecando por ingratidão em relação aos imortais. Decide-se, então, sentar no olimpo com os deuses. Sua hybris é, no fim, purificada pelo castigo enviado por Zeus que o derruba do seu cavalo alado Pégaso pondo fim, com a morte, em sua arrogância desmedida.

Jupiter e Belerofonte
Anonimo
No pensamento de Santo Tomás de Aquino, o fenômeno é articulado como um excesso no desejo de excelência – soberba: o pecado mais capital de todos – que consiste em se desviar da reta regra da razão divinamente informada. De acordo com ele, ser soberbo “é superar (superbire) a própria medida no desejo de superioridade”, a soberba é a mais abrangente de todos os pecados por projeção de sua extensão, é a raiz de todos os outros pecados.
A soberba é, assim, um amor de si desordenado que distorce a própria natureza e as relações humanas que estabelece no mundo. Em nosso próprio e inescapável ego há uma tendência que pode desviar nosso desenvolvimento pessoal da sua mais genuína e verdadeira meta para vias ilusórias e distorcidamente viciosas. A soberba intelectual, cuja tentação começa quando aprendemos a fazer nossas primeiras conclusões bem sucedidas, se converterá, no final das contas, em erro grosseiro devido à recusa em desconfiar das próprias posições e opiniões que foram banhadas em hybris de ensoberbada estima.
O problema da satisfação desenfreada dos apetites também é um sério problema na perspectiva de um ego desordenado, pois, além de destruir o livre-arbítrio, converte-se em voragem que drena do mundo sem se preocupar com as consequências e sofrimentos que podem ser provocados pelas suas ações. O Retrato de Dorian Gray retrata esta desventura do ego insuflado por doutrinas equivocadas que é capaz de colocar uma pessoa em uma situação de contradição interna consigo mesma, uma contradição que leva o personagem a um desfecho trágico. O ego se preocupa apenas com coisas superficiais: aparência, honra, reputação social e satisfação dos próprios desejos e interesses materiais.
Analisar a sua natureza é uma tarefa demasiadamente extensa e complexa, mas é indispensável para uma relação mais consciente com o próprio destino no mundo. A vigilância necessária só é possível quando estamos dispostos a reconhecer as próprias fraquezas, limitações, e corrupções comuns a toda natureza humana que é finita. Conforme observa Pascal: “Cada um é um todo para si mesmo, pois uma vez ele morto, tudo está morto para ele. E daí decorre que cada um acredita ser tudo para todos. Não se deve julgar a natureza segundo nós, mas segundo ela”. Assim, admitir e pressupor a finitude e falibilidade da própria natureza pode ser uma condição desagradável, porém indispensável para uma atuação reflexiva internamente e conscienciosa no mundo. Ele chega a declarar abertamente em seus escritos o ódio que sente à própria natureza humana corrompida.
Independentemente de qualquer severidade derivada de fervorismo religioso, esta negatividade do espírito no sentido filosófico apontado por Hegel (fundamento do sentido que é empregado popularmente) pode ser direcionada favoravelmente para combater e restringir estas tendências perniciosas do ego. A estranheza com relação aos próprios pressupostos
traz um ganho de reflexividade que possibilita uma abertura para a compreensão de outras realidades, a autocrítica de nossas pretensões sobre outras pessoas é condição indispensável para o florescimento do senso ético.
O Vazio e a Libertação do Ego
A questão pela natureza da substância do ego escapa aos parâmetros metodológicos empíricos da ciência moderna, pois possui ligações com realidades metafísicas. O ego é uma realidade ao mesmo tempo psicológica e espiritual, assim a investigação do ego é uma tarefa mais pertinente ao terreno do esoterismo e das psicologias cujos componentes teóricos são bem mais especulativos; onde, portanto, a divergência e a contestação encontra-se bastante presente.
A morte do ego – ou, ao menos, o enfraquecimento de sua influência – é a condição para a vida do espírito na existência pessoal. Mas o ego sempre busca seu próprio engrandecimento, o envaidecimento que produz não passa de um desdobramento estéril sobre si mesmo, que no lugar de se esvaziar para plenificar-se de algo além, se satura obstruindo seus canais com conteúdos atribui a si mesmo. Neste sentido, Pascal apresenta a vaidade como algo que acorrenta severamente o coração pela necessidade de glória, reconhecimento, estima e admiração das outras pessoas, ao ponto de nos preocuparmos muito mais com a imagem que criamos nos outros do que em expressar a verdade que trazemos em nosso ser, de acordo com ele “concordaríamos ser poltrões para adquirir a reputação de ser valentes”.
O ego pode ser abordado, neste aspecto, como uma instância de separatividade e exaltação do indivíduo, uma instância derivada que não é a sua realidade última, podendo ser considerada até mesmo ilusória. Ele surge pela necessidade primitiva de diferenciação do indivíduo frente ao mundo ao seu redor que é acompanhada de uma certa hostilidade instintiva em relação ao que lhe é diferente – a influência astrológica de Marte na constituição e no temperamento humano, ou a alma irascível no pensamento platônico – bastante preponderante nas primeiras fases de sua experiência de vida, cujo processo de evolução exige a superação de sua força limitadora. Uma ontologia do ego de modo semelhantemente configurada pode ser encontrada no pensamento de Huberto Rohden, filósofo brasileiro, para quem “o ego não é, pois, ego subsistente em si mesmo nem separado do seu vasto substrato. O ego é um objeto derivado, que inere no sujeito do Eu, também derivado. Ambos, porém, inerem, ultimamente, numa Realidade não derivada.”

Soberbia
Aurora Lópes
Em contraposição às influências do ego, pode ser encontrada a comunhão do indivíduo com as universalidades do cosmos e a fraternidade possível com os outros indivíduos. Rohden considera que o senso de separação do ego dirige ao pecado enquanto a razão conduz à verdade da união. Em seu pensamento encontra-se uma diferenciação entre a inteligência luciferiana criadora da ilusão de separatividade e a razão intuitiva que conduz ao “Eu central” e redime o ser humano do seu ego. O ego é um fenômeno que encontra-se atrelado às identidades construídas ao longo da história pessoal de vida. A personalidade não é a realidade última do indivíduo, não é ainda sua essência, é apenas uma interface superficial de interação com o mundo que deve ser dissolvida e ser reconstruída de acordo com as circunstâncias e necessidades cambiantes da vida: é uma máscara fictícia conforme caracteriza Huberto Rohden, com a qual nos apegamos e nos identificamos equivocadamente em busca de satisfazer as necessidades de certeza do ego.
Há um conceito metafísico proveniente das teologias orientais que expõe à luz o egocentrismo de um modo diferente das tradições ocidentais costumam fazer. O conceito de Vazio é entendido como a busca individual e espiritualizada pela libertação da necessidade das certezas e pressuposições que estão previamente estabelecidas na mente (visões de mundo, discursos sobre a realidade) e dos interesses egoístas, tratando estes aspectos da vida como obstruções para a Totalidade, o Absoluto, a Verdade: conceitos de ordem metafísica que plenificam a existência a tornando mais bela e divina. Uma das metas das práticas de meditações e mantras das religiões orientais é eliminar do coração humano a prepotência e arrogância que está presente nos julgamentos humano. É este esvaziamento das certezas que torna paradoxalmente possível a presença plena da realidade no espírito. O conceito teológico oriental do Vazio é bastante aproximado à suspensão do juízo preconizada pelo ceticismo ocidental surgido na Grécia antiga. A arrogância, soberba, prepotência nas palavras são patologias da verdade, indícios de baixa confiabilidade do discurso.
Diferentemente das teologias ocidentais que são mais dogmáticas e doutrinárias, as teologias orientais tais como o budismo, hinduísmo, xintoísmo, taoismo são mais flexíveis e direcionadas ao esforço pessoal de evolução pessoal em meio ao devir, transformações e impermanências do mundo. Elas encaram diretamente o problema do ego ensinando sobre o desapego e presença plena do espírito no momentâneo e denunciam a necessidade de certezas como uma das tentações ilusórias do ego. Osho, um monge e pensador do zen budismo, apresenta a seguinte parábola sobre a iluminação típica deste caminho espiritual:
“Subhuti era um dos discípulos de Buda. Ele era capaz de entender o poder do vazio – o ponto de vista de que nada existe, exceto em sua relação de subjetividade e objetividade. Um dia, quando Subhuti estava sentado debaixo de uma árvore, num espírito de sublime vazio, flores começaram a cair em torno dele.
“Estamos louvando você sobre seu discurso sobre o vazio”, os deuses lhe sussurraram. “Mas eu não falei do vazio”, disse Subhuti. “Você não falou do vazio, nós não ouvimos o vazio”, responderam os deuses. Esse é o verdadeiro vazio.
E flores se derramaram sobre Subhuti como chuva.”
Uma parábola que se assemelha ao cerne do método de Sócrates sintetizado naquele seu famoso dito: “só sei que nada sei”. Sócrates também afirmava seguir os desígnios dos deuses em seus diálogos itinerários por Atenas. A vontade pessoal obstinada do ego atrapalha o fluir da vida conforme a melhor e mais perfeita Vontade. Enquanto a vaidade e a ambição dirigirem nossas vidas os resultados serão desastrosos. O ego nos leva a pretender que o mundo gravite ao redor dos nossos próprios interesses e expectativas. Uma libertação encontra-se neste vazio negativo que é ao mesmo tempo a possibilidade positiva de ser plenificado por um amor genuíno – e não apenas fazer uso – à algo que está além da extensão das nossas próprias necessidades egoístas.
Expondo o Narcisista!
Outro perigo relativo as deformidades do ego diz repeito a própria destruição pessoal nos relacionamentos humanos. Não é prudente menosprezar e desconhecer aquilo que um ego descomedido é capaz de fazer: desde ardis e esquemas metódicos de poder e controle sobre a vida de outras pessoas à vingança e morticínio motivado por inveja. O ego não sabe como amar outra pessoa, se preocupa apenas com as vantagens e benefícios que pode receber na relação, drena sua vitalidade sem nunca oferecer os afetos necessários para ela. No final das contas, uma pessoa egocêntrica ama apenas a si mesmo e quanto a outra pessoa: ama a apenas na medida que pode usá-la em proveito próprio.
O mito de Narciso de Ovídio encontrado em sua Metamorfose retrata bem esta realidade das relações humanas. Ele apresenta a mesma estrutura do mito de Belerofonte: narciso era um jovem muito belo embevecido na hybris da vaidade e soberba que desprezava seus inúmeros pretendes por não considerá-los à altura de sua pretensa excelência. Também sofreu o castigo dos deuses pelo seu descomedimento. Nêmesis e Afrodite se fusionam e o castigam, fazendo-o se apaixonar por sua própria imagem refletida na superfície do lago, ele sofre até definhar ao perceber a impossibilidade de ser seu possuidor. Torna-se, então, uma flor que recebe o seu nome, enquanto nas relações humanas a denominação foi utilizada para designar uma pessoa extremamente egocêntrica.

Eco e Narciso
John William Waterhouse
Infeliz daquele que se entrega ingenuamente em um relacionamento com uma pessoa narcisista: seu destino será semelhante ao da ninfa Eco que ao ser rejeitada por Narciso definhou até se reduzir ao som de sua maravilhosa voz. Será um relacionamento unilateral e centralizado exclusivamente nas suas próprias necessidades e expectativas onde não há reconhecimento e espaço para a alteridade da outra pessoa. Um narcisista é alguém que ama a imagem que sua imaginação e paixões descomedidas projetam arbitrariamente na realidade, não ama a realidade em si, em sua objetividade que pode ser assustadoramente desapontadora: sempre que precisar decidir entre a verdade e sua idiossincrasia pessoal, um narcisista é capaz de preferir permanecer com a própria ilusão. Neste momento, ele põe em prática um cinismo epistêmico que neutraliza qualquer reflexividade negativa de seus equívocos no próprio espírito, assim declara o império da sua opinião sobre a verdade e de suas pretensões egoístas sobre outras pessoas, e pode reagir violentamente quando contrariado ou frustrado. Por isso, é muito provável que empregue métodos e ardis de manipulação para assumir o domínio e controle e decidir sobre sua vida no seu lugar. De qualquer modo, uma relação com um narcisista será uma relação sem equilíbrio, transigência e mutualidade, um sepulcro onde prevalece o egoísmo de uma parte ao lado do sofrimento e degeneração da outra que será usada e manobrada de acordo com sua própria conveniência.
Dar, receber, tirar, reter, desprezar… a razão assiste à Machado de Assis quando diz que “essa moeda do coração não se deve nunca reduzir a trocos miúdos nem despender em quinquilharias”. Independente de ser macho ou fêmea, o abuso psicológico pode ser praticado por qualquer pessoa sobre qualquer. É necessário conhecimento para identificar uma relação narcisista. A generalização ideológica e vingativa é apenas um embuste político, uma desorientação ardilosa lançado encima de um outro equívoco preexistente. É inegável que as condições culturais das relações entre em homens e mulheres em nossa sociedade são bastante desniveladoras, cabendo historicamente às mulheres papéis de submissão doméstica com resistência à igualdade das posições sociais, mas a transformação verdadeira é de ordem reflexiva, conceitual e, portanto, individual.
A verdade precisa ser dita: nestes casos, onde há um abusador psicológico, e se não foi empregado o uso da força, há alguém que se submeteu voluntariamente. É preciso assumir a responsabilidade pelo próprio destino e reconhecer que a entrega passional ingênua que eclipsou a razão foi deliberada desde o seu inicio (sobre este ponto, ler também o post: Os Fundamentos da Liberdade). Um relacionamento abusivo rasga feridas narcísicas profundas que destroem a confiança e contaminam a alma com vinganças sentimentais restitutivas do tipo: “também quero receber do mesmo modo tudo aquilo que tiraram de mim”, que, em ultima instância, transformam a vítima em um novo abusador. Os políticos, melhor do que ninguém, sabem muito bem como se aproveitar das peculiaridades humanas para seus planos de poder.
Amor Próprio e Vaidade
Há uma certa dificuldade prática em distinguir a vaidade de um setor da experiência humana compreendido comumente através das noções de autoestima ou amor próprio. Trata-se de um conceito envolto em uma confusão e nebulosidade que facilita a atuação das forças egocêntricas. Neste sentido, pode-se observar como as redes sociais favorecem um tipo de vaidade social presente no esforço apelativo de ganhar fama e visibilidade social à qualquer custo e em detrimento da qualidade do conteúdo que é oferecido ao público. Um esforço que é encorajado pelo marketing dos anúncios publicitários.
Conforme já demonstrado anteriormente na caracterização a soberba feita por Santo Tomás, este é uma possibilidade imanente da nossa própria natureza – uma corrupção como diz Pascal – que só pode ser desfeito quando se conquista o conhecimento verdadeiro da essência da alma. O problema diz respeito a não errar o alvo, de acertar o objetivo adequado: o belo metafísico. A vaidade, para Tomás de Aquino, é um pecado filho da soberba relativo a glória. A glória é a admiração e o reconhecimento adequados por alguma excelência que é manifestada por alguém, já a vanglória, ou vaidade, é a atribuição equivocada de glória a algum bem vão, sem consistência e solidez: beleza física efêmera, número de seguidores em redes sociais, feitos desonestos…
Adequadamente, Eros representa a necessidade de coisas verdadeiramente belas e excelentes, é uma atração que nos faz desejar gerá-las e tê-las em nossa vida. Mais ontologicamente genuíno que o erotismo sexual, Eros é um impulso mais elevado e abrangente, presente em um ser que se sabe incompleto, dirigido para a sabedoria considerada como a coisa mais bela e nobre de todas. No diálogo O Banquete de Platão, Eros é retratado como filho da deusa Pínia (deusa da penúria, carência, ausência, vazio) e Poros (deus da abundância), como um Daimon (δαίμων): um ser entre o divino e o mortal a quem é incumbido a tarefa de realizar a ligação entre estas duas dimensões. Desenvolvido em sua melhor possibilidade, o Erotismo é um impulso vertical que nos leva a tratar a si mesmo como uma obra a ser realizada na unidade com o belo em nossos próprios sentimentos, pensamentos e ações, é um chamado para concretizar o belo em nossa existência no mundo, de um modo que o erotismo sexual é apenas uma manifestação derivada e horizontal: os verdadeiros amantes amam, acima de tudo, a beleza metafísica presente na alma do amado e o ajudam a se tornar sempre melhor.
Eros e Psyche
Louis-Jean-François Lagrenée

Assim, o objetivo adequado aponta na direção contrária aos vícios do ego que sempre referirá a si mesmo em comparação a alguma outra pessoa, ele aponta para a própria alma como o centro de autenticidade a partir de onde deve laborar de acordo com suas coordenadas intrínsecas. A relação com a alma ocorre pelo desenvolvimento da intuição intelectual. De acordo com Platão, a alma é a força que move a si mesmo. É a força que motiva e anima a vida (ζωή) a partir de si mesmo, é a “fonte e início de movimento” e, como tal, “não pode desaparecer nem se formar, do contrário o universo e todas as gerações parariam e nunca mais poderiam ser movidos. Pois bem, o que a si próprio se move é imortal”. Portanto, a dimensão mais elevada do amor é uma intencionalidade dirigida para a sabedoria do belo metafísico, para o conhecimento da própria essência divina que há na alma.
Para caracterizar este tipo de amor, Platão apresenta uma imagem mítica – método bastante típico de suas diálogos filosóficos – a imagem da parelha alada. Nesta imagem, a alma humana é composta de um cocheiro que tenta governar dois cavalos: um de raça divina e outro de raça ruim e arrevesada. O seu trabalho é conduzir a alma pela ordem perfeita que governa o cosmos seguindo a tribo dos deuses com a qual possui afinidade em seu percurso pela abóbada celeste e contemplar tudo que abarca o universo abaixo. Porém, esta é uma tarefa árdua para a alma humana, pois o cavalo arrevesado sempre atrapalha e a faz declinar encarnando em um corpo que é, de algum modo, o cerne das paixões e prazeres do ego. Diferentemente dos deuses, a alma humana encontra-se, deste modo, nesta relação de dubiedade com as paixões e prazeres corporais.
Amar a si próprio pode ser considerado, portanto, como um esforço dirigido a si mesmo de bem ordenar intelectualmente a alma sem se entregar as desmedidas e exageros do ego, diferentemente da vaidade que visa, acima de qualquer outra coisa, o reconhecimento dos outros. Santo Tomás de Aquino lança nosso olhar para a virtude da magnanimidade como oposta por deficiência à vaidade, uma virtude que consiste em ter em pouca conta a honra devida as boas realizações. Porém, preocupar-se excessivamente com virtudes pode insuflar o ego enquanto aquilo que importa, na verdade, é manter o coração liberto destas tentações de enaltecimento próprio.
Referências:
- Os Sete Pecados Capitais:Santo Tomás de Aquino
- Fedro:Platão
- Fedon:Platão
- O Banquete:Platão
- Sublime Vazio:Osho
- Marte: O Senhor da Guerra:Alan Leo
- O Espírito da Filosofia Oriental:Huberto Rohden
- Ética a Nicômaco:Aristóteles
- Pensamentos:Blaise Pascal
- Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático:Immanuel Kant
