Há uma tensão na dinâmica do desenvolvimento humano que precisa ser problematizada mais enfaticamente, pois afeta a conjuntura social da nossa vida desde longa data. Atualmente estamos diante de uma mudança semelhante ao que aconteceu na Revolução Industrial do século XVIII. Trata-se de um tema relevantíssimo para o contexto atual, pois transformações sociais produzidas por esse tipo de processo parecem estar se intensificando novamente neste século. A abordagem deste post retomará momentos históricos da civilização para apontar para um período de inflexão no conhecimento humano e mostrar como isto vem afetando nossa vida no mundo desde então. A proposta deste texto é uma crítica filosófica aos modos de vida que estamos habituados, do qual estamos cotidianamente muito próximos para termos uma perspectiva de observação facilitada. O objetivo é expor alguns perigos e mostrar coisas importantes que estamos perdendo devido a esta força de transformação social.

Nant y Glo, Monmouthshire
Henry G. Gastineau & Samuel Lacey
As sociedades humanas só florescem grandiosamente se forem baseadas em algo realmente sólido e fundamental. Os conceitos que a cultura desenvolve e transmite de geração em geração regendo as relações do indivíduo com o seu mundo circundante só serão bem sucedidos se forem provenientes da fonte originária de sabedoria do Ser. A tradição conserva registrado este conhecimento adquirido transmitindo-o adiante.
A cultura grega é um dos componentes tradicionais presentes em nossa sociedade cujo legado veem sendo deixado no esquecimento paulatinamente. Os poetas, artesões e os pensadores gregos formam uma constelação de referências cujas obras resultaram no desenvolvimento dos conceitos mais fundamentais e basilares para a formação da cultura ocidental. Podemos citar as contribuições de Hesíodo, Homero, Tales, Sócrates, Platão, Aristóteles, Sólon, Hipócrates, dentre várias outras figuras relevantes para diversas áreas do conhecimento. Aos seus esforços originários podem ser atribuído o desenvolvimento de artes como a tragédia, a medicina, filosofia, a ciência política, dentre outros mais. Estes conhecimentos foram provenientes de inspirações, observações, especulações, deduções e comprovações a partir de um modo de relação com o cosmos que vem se perdendo de vista atualmente. Os gregos, a partir da disposição privilegiada e profunda de suas intuições, alcançaram uma abertura e sintonia grandiosa com o Ser e deixaram um legado importantíssimo para o mundo.
Um desses desenvolvimentos de extrema importância que surgiu com Heráclito de Éfeso – continuando seu movimento através de Sócrates, Platão, Aristóteles, entre outros ainda mais adiante – foi o conceito deλόγος. Um conceito extremamente fundamental que significa dentro de uma ampla e larga acepção: razão. A razão, no sentido clássico, pode ser entendida como o conhecimento da coerência e da ordem real das coisas com base na qual construímos nossos discursos, argumentos e teorias científicas que explicam nosso mundo e justifica o que fazemos nele. É a faculdade humana que nos diferencia dos outros animas que são quase integralmente dirigidos por impulsos instintivos.
Há uma história bem interessante sobre Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo. Já no século V a.C., sem o auxílio de nenhum instrumental científico avançado, ele havia previsto, observando as estrelas e baseando-se em seu modelo de conhecimento astronômico, uma excelente colheita de azeitonas com bastante antecedência. As oliveiras eram de extrema relevância na cultura grega. Se aproveitando deste fato, estabeleceu um monopólio econômico e ficou bastante rico, utilizando sua fortuna para viajar pelo mundo antigo e fazer mais descobertas. Este exemplo mostra como os antigos tinham uma consciência e intuição profunda do cosmos – tanto humano quanto natural – conjuntamente com uma visão abrangente e uma atitude mental teórica especulativa capaz de perscrutar o Ser em suas estruturas e camadas elementares mais fundamentais. Uma outra característica desta maneira de pensar era a busca pela origem do Ser, Tales afirmou que o primeiro princípio (ἀρχή) era a água, enquanto Heráclito afirmou que era o fogo.
A Epistemologia Antiga e a Moderna: parâmetros de compreensão diferentes.
Desde os séculos dos antigos até os tempos contemporâneos muita história passou e muita coisa mudou no que diz respeito ao estado epistemológico do conhecimento preponderante na sociedade. Uma mudança significativa começou a dar seus primeiros impulsos no século XVI com Galileu Galilei, considerado o pai da ciência moderna. Ele deu início ao desenvolvimento de uma nova maneira de investigar a realidade. Com Galileu, a medição matemática dos fenômenos em experiências científicas controladas realizadas com o auxílio de instrumentos técnicos cada vez mais precisos começou a se tornar o critério de cientificidade do conhecimento. Em auxílio a esse movimento, os pensadores modernos pretenderam fundamentar filosoficamente essa nova ciência em formação. O francês Descartes propôs, através da sua dúvida metódica, um modelo epistemológico bastante diferente daquele que estava em vigência desde antigamente. A sua dúvida metódica é um modo de pensar que parte de um ceticismo radical sobre o mundo e o nosso ato de conhecimento. Nele vemos um sujeito isolado que começa a duvidar de todas as certezas prévias que carrega a respeito do mundo que tem diante de si. Após destruir todas aquelas que não resistiram a uma verificação crítica, começa a construir novas certezas baseadas, deste vez, na demonstração racional. Neste processo, ele concluiu por estabelecer o sentido do mundo como extensão física, explicitando filosoficamente a abordagem que vinha sendo posta em prática veladamente. Com o tempo, o método desta nova ciência em formação – a física mecânica – que estuda o movimento dos corpos materiais, tornou-se o modelo das ciências por excelência e todas as outras ciências passariam a ter que se pautar por ela. Galileu, entre outros feitos, descobriu a lei da queda dos corpos, além de descobertas na astronomia com a ajuda da sua invenção do telescópio. Estas descobertas vieram a dar a confirmação das teorias Heliocêntricas proposta por Copérnico décadas antes.
Um outro pensador muito relevante para a construção deste modelo de conhecimento foi Immanuel Kant. Em sua Crítica sobre Razão Pura, seu pensamento estabeleceu limites para o conhecimento que a razão poderia atingir restringindo-o ao âmbito da intuição sensível. À razão metafísica caberia legitimamente apenas o estudo da constituição das nossas estruturas cognoscíveis e da relação estabelecida com o mundo, de modo que fosse possível explicitar um padrão sistematizado de conhecimento científico. A compreensão que os antigos tinham do universo era profundamente metafísica, entendida no sentido de se dirigir sem preceitos restritivos para a universalidade e unidade absolutas e fundamentais do Ser: o universo grego era repleto de deuses, ordenado a partir do caos primordial, hierarquizado em níveis ontológicos correspondendo relações analógicas entre eles, desde os mais sensíveis e materiais até os mais sutis, elevados e intelectuais. A compreensão de ser da modernidade é planificadora e visa se restringir, de acordo com os cânones epistemológicos modernos, à interface dos fenômenos que se apresentam para nós na percepção sensível. Ao que parece, a intenção deste movimento foi repousar o conhecimento em um solo comum de demonstrabilidade e objetividade maximamente compartilhada intersubjetivamente. De fato, o que aconteceu foi que, em suas críticas à metafísica, Kant contribuiu para desacreditar a intuição espiritual dos antigos.
Foi durante o Iluminismo, um período de radical mudanças sociais na Europa iniciado no século XVIII, que houve uma forte intensificação dessas mudanças do eixo do pensamento para os parâmetros científicos modernos. A sua proposta foi uma ruptura com os parâmetros eclesiásticos e religiosos medievais que ainda repousavam no modelo dos antigos, resultando no reposicionamento da razão de modo mais radicalmente desvinculado da espiritualidade. Em Kant, por exemplo, o escopo da razão na ética foi delimitado a uma faculdade intersubjetivamente compartilhada: o reino dos fins humanos (o ser humano como fim em si mesmo). Enquanto a ética medieval e antiga é baseada em uma cosmologia teológica, a ética kantiana é baseada em preceitos formais que deveriam ser deduzidos exclusivamente da razão humana.
Um outro momento deste movimento de mudança dos parâmetros da razão e de investigação da realidade pode ser encontrado no pensamento epistemológico da Inglaterra do século XVII. Reconhecida pela expressão “tábula rasa”, a maneira de pensar o conhecimento desenvolvida por John Locke estabelece que a mente humana surge no mundo sem nenhum conteúdo prévio, todo conhecimento é proveniente da experiência sensível que faz do mundo. Descartes ainda admitia a existência de noções inatas na mente humana.
Enquanto, por sua vez, oλόγος grego (razão) é um conceito holístico que acompanha a participação da multiplicidade das coisas nas essências universais até o princípio fundamental de onde tudo se origina, o ceticismo de Descartes acompanhado pelo criticismo de Kant abriram um abismo entre o sujeito e o mundo. O pensamento de Kant estabelece ser impossível para o entendimento ter acesso imediato à realidade (númeno), tudo que se pode conhecer do mundo é aquilo que nos é representado pelas intuições sensíveis (fenômeno). Em Descartes, por sua vez, Deus é o fiador da relação abalada da mente humana com o mundo. Os antigos entediam o pensamento como um movimento sinóptico de ascensão dialética (ανάλογος) em direção aos princípios mais elevados que fundamentam o significado desta multiplicidade de coisas que estão mais imediatamente ao alcance dos sentidos. Para Platão, a realidade sensível é mutável, perecível e deriva sua existência ontológica de sua participação em uma dimensão real transcendental, inteligível e imutável.

Galileu Galilei
Justus Sustermans
A maneira de pensar dos antigos coloca em ato nossa própria vivência interior em integração e sintonia com as potencialidades formadoras do cosmos. Não é de outro modo que Empédocles de Agrigento afirma que só podemos conhecer aquilo que nos é semelhante. Para ele os quatro princípios estruturais dos cosmos são a água, o fogo, a terra e o ar. Amor e ódio explicam o movimento de agregação e separação desses elementos para formar as coisas do mundo. – Quem duvida que somos constituídos em nossos fundamentos pela terra, água, fogo e ar?! Nossas células se encontram em meio aquoso e precisam de hidratação constantemente, também temos a necessidade de oxigênio para a combustão que ocorre nas mitocôndrias e produz a energia de animação vital. A teoria dos quatro elementos de Empédocles não ficou limitada à cosmologia, vendo uma aplicação relacionada com a medicina por Hipócrates que foi posteriormente expandida para os temperamentos e inclinações da personalidade pelo seu sucessor Galeno. Teorias semelhantes aparecem em diversas outras culturas antigas. Até mesmo no pensamento ocidental mais atual encontrou aplicação nos trabalhos de psicologia de Carl Jung que atribui cada elemento à diferentes funções psíquicas, e de David Keirsey que rastreou quatro tipos de temperamentos baseados nestes elementos: artesão, guardião, idealista e racional.
A religião cívica dos gregos demonstrou como a vida em sociedade era integrada em uma ordem natural que a transcendia e fundamentava. A vida cotidiana da polis era prenhe de deuses: Héstia, deusa do lar; Ártemis era a deusa da caça; Atena era a deusa da sabedoria; Poseidon, o deus dos mares, etc. Piedade e atos de devoção eram realizados a esses deuses para obter suas bençãos nas diversas áreas da vida. A grande complexidade que esse modo de pensar no mundo nos coloca é a questão da demonstrabilidade. Embora possa fazer sentido em nossos sentimentos é difícil dar provas objetivas. Olavo de Carvalho retratou bem esta problemática afirmando que este princípio fundamental encontra-se para a nossa razão como uma assíntota: um ponto para o qual é possível nos dirigirmos, porém sendo impossível conseguirmos alcançá-lo plenamente.
Tudo isto se trata de duas maneiras com a qual nosso pensamento se relaciona com o mundo. A ciência moderna se assenta em um parâmetro de compreensão que separou o pensamento humano da totalidade do cosmos e fragmentou a realidade em diversas áreas de investigação, deslocando o conceito da razão de sua posição de origem. Talvez o que devemos fazer, em vez de duvidar de tudo como faz Descartes ou obstruir as possibilidades de conhecimento válido como faz Kant, deve ser acreditar na existência dessas coisas para as quais estamos destinados buscar e conhecer. Acredito que devemos manter a mente sempre aberta para possibilidades até que, no percurso de nossas investigações e desenvolvimento intelectual, consigamos demonstrar com argumentos irrefutáveis que elas de fato não existem e foram extrapolação da nossa imaginação fértil, ou o contrário.
A Sutileza Soterrada nos Escombros da Civilização Moderna
A maneira de pensar a realidade dos antigos tem a virtude de nos colocar em contato com a naturalidade mais autêntica do nosso ser sem disruptura com seu destino na totalidade do cosmos. A mudança para o padrão moderno não acontece sem provocar abalos em nossa relação com o mundo e com nosso próprio ser.
É certo que as descobertas da nova ciência contribuíram intensamente para o progresso material da humanidade. A partir da revolução científica aconteceu um aumento vertiginoso de novas teorias explicando como o universo funciona: Teoria da Gravitação Universal, Teoria da Relatividade, Teoria da Eletricidade, Radioatividade, Termodinâmica, entre outras. O principal traço característico destas novas teorias é que elas foram permitindo o entendimento dos fenômenos observados na medida da manipulação requisitada pela satisfação das necessidades materiais humanas. O cientista moderno é movido pela ambição de entender a natureza indomada ao seu redor de maneira que possa avançar o conhecimento científico em proveito para a humanidade. A base epistemológica pela qual este paradigma de conhecimento opera é a lei geral da causa e efeito, formulação que deriva da causa eficiente de Aristóteles. A causa final, um outro traço ontológico do ser também descoberto por ele, correspondente às potências universais que permeiam o movimento espiritual do cosmos, não é muito estimada por este modo de operação científica. Ela foi sendo colocada em segundo plano durante a formação dessa nova mentalidade, pois a maior ênfase voltada nas relações mecânicas de causa e efeito permitiu desenvolver maneiras perspicazes de dar explicações que possibilitam fazer previsões mensuráveis de como os fenômenos acontecem e interferir calculadamente nos resultados para obter efeitos desejados. Tanto é assim que Lorde Kelvin, um físico e matemático britânico que fez importantes contribuições para a análise matemáticas das ciências, afirmou: “Se você não pode medir, você não pode aperfeiçoar”. Neste mesmo sentido, uma reforma do conhecimento foi proposta e empreendida por Francis Bacon. Em sua obra ele propõe que a função do conhecimento é dar ao ser humano poder sobre a natureza. Este novo método se tornou tão patente que na teoria positivista de Auguste Comte a sociologia é considerada como uma “física social”.
A linguagem da natureza deve ser traduzida em números. Nesta nova concepção, a ciência não visa mais responder pelo “quê são as coisas” ou “qual sua origem e fundamento”, ela visa responder o “como” dos fenômenos naturais. O método empírico das ciências modernas pode ser entendido mais vulgarmente como uma “tortura da natureza” em busca da confirmação de hipóteses. – Basta constatar a existência de cobaias e os limites éticos de fazer o mesmo com os seres humanos. Qual é “o preço” das novas descobertas?! – A ciência moderna inspirou a figura literária do cientista e suas experiências ousadas. Nos tempos atuais, vemos a proposta da inteligência artificial que supõe ser possível a consciência em máquinas. Uma retórica onde o quê existe é, de fato, um simulacro computacional: um input que capta impulsos físicos seguido pelo seu processamento e um output que oferece uma resposta através de robótica.
É assim que a ciência moderna e a técnica andam de mãos dadas. Esta relação contém uma problemática ainda pouco constatada na sociedade atual devido ao deslumbramento provocado pelos benefícios materiais experimentados: conseguimos aumentar a expectativa de vida até o limite humano, obtemos conforto e segurança dos fenômenos naturais que podem nos trazer perigo, temos entretenimento cada vez mais sofisticados, etc. Mas será que não existe algum contraponto nisso tudo? Quais são as implicações negativas do progresso cada vez mais acentuado da tecnologia moderna em nossas vidas?! Será que já não há sinais ou anúncio de um novo crepúsculo na história da humanidade?! Até o presente momento a concepção vigente considera a humanidade em direção a um estado de coisas cada vez melhor que o anterior. Ocupados com o andamento do progresso e ansiosos por novas tecnologias que facilitem nossas vidas ainda mais, perdermos de vista algo importante com relação ao mundo da vida cotidiana mais próximo. As relações com o próprio ser e com as outras pessoas tem decaído de qualidade: um declínio espiritual parece acompanhar o intenso empenho e esforço pela tecnologia. Ansiedade, estresse, depressão, parecem ser os grandes males deste novo século e do anterior; sem mencionar que até mesmo as investigações das ciências teóricas parecem estar entrando em estado de estagnação, pois não apresentaram descobertas significativas nas últimas duas ou três décadas, no mínimo. O problema da tecnologia já começou a colocar sua primeira camada de escamas à mostra…

Crepúsculo em Veneza
Claude Monet
A palavra grega τέχνη, traduzida por técnica, significa uma maneira de realizar uma ação e produzir um resultado, também pode significar arte. A figura do artesão tem uma relevância muito grande no pensamento de Platão sobre a politica, onde para cada função social corresponde uma arte com uma técnica adequada de bem exercê-la. A polis grega é composta por artesões: o guardião, o comerciante, o músico, o médico. A tecnologia moderna que temos hoje é proveniente desta modalidade de conhecimento antigo modificado pelas grandes transformações da revolução científica. A técnica ao passar por mudanças na sua concepção originária sofreu um certo deslocamento no seu papel na sociedade. Vivemos em um mundo materialmente muito diferente do mundo antigo – e espiritualmente também. Um mundo circundado de inúmeros utensílios de elevado valor científico agregado (como eletrodomésticos, carros, computadores) que demonstra um grande empenho em atender nossas necessidades e luxos materiais de uma maneira bem mais intensa e preponderante. A técnica antiga produzia jarros para carregar águas, templos para os deuses, instrumentos musicais produzidos artesanalmente baseado em uma interação mais intimista com o músico. Enquanto a técnica antiga era apenas um complemento muito bem posicionado em um mundo mais abrangente, a tecnologia moderna modelou nosso mundo atual de uma maneira diferente, passando a ser o objetivo principal de nosso empenho. Basta constatar como o mundo é voltado para os números que medem os resultados econômicos: produção, consumo, desemprego, inflação. A ciência administrativa da produção em larga escala, o marketing empresarial e vendas, a política econômica do Estado moderno: nosso mundo atual é governado por outro modo de racionalidade.
Estas mudanças culminaram em um ambiente artificial onde nossa vida se desenvolve assim como plantas em uma redoma. Sentimos necessidade de abrigo, então desenvolvemos a engenharia e construção civil que, muito além das casas de alvenaria, produziu os arranhas céus: construtos supérfluos da vaidade humana que vão muito além da satisfação das nossas necessidades, verdadeiros monumentos do nosso poder de domínio sobre a natureza. Justamente assim uma bolha de metal e concreto foi nos envolvendo e nos separou do cosmos natural, nos apartando da verdade mais imediata do mundo. A vida nos centros urbanos afeta a nossa relação com a realidade, pois se interpõe em nosso contato com o Ser e distorce nossas afinidades e conexões naturais. Perdemos o contato com a mãe terra pois os solos foram asfaltados, e agora compramos alimentos produzidos por métodos científicos de alta eficiência. Os gregos antigos plantavam e colhiam diretamente no solo enquanto se relacionavam com as divindades da fertilidade para obter suas bênçãos na colheita (Démeter, Hécate). Eles tinham técnicas diferentes de cultivo. Agora a questão de saber se o fato de serem menos desenvolvidas cientificamente significa algo ruim ou bom parece não ser tão simples assim. A natureza humana é bastante ambígua.
A inovação tecnológica muda as nossas formas de vida, mas inovação não significa evolução. Aqueles que detém o poder econômico para financiar pesquisas e produzir tecnologia nova possuem um certo poder para conduzir nossos modos de vida de acordo com suas intenções e planos. A tecnologia nos trouxe até a era da revolução digital, que nada mais é que um agravo do quadro mencionado no início do texto. A realidade virtual pode ser um passo a mais na direção do alheamento da mente humana da realidade. Uma geração inteira já cresceu completamente imersa no ambiente digital da internet e redes sociais. As tecnologias digitais não são inofensivas politicamente e trazem uma problemática epistemológica interessante: colocam nossas mentes mais facilmente ao acesso e controle de outras pessoas: basta ver a problemática dos logaritmos que coletam informações sobre o usuário e distribuem conteúdo com o objetivo de aumentar as vendas. Com estas tecnologias, a informações que recebemos do mundo nos chegam através de telas em nossas mãos, ou de televisões fixadas nas paredes de nossas casas. O fato de sobrecarregarmos nossas mentes com informações sobre o mundo sem termos contato e experiência direta e pessoal com a realidade está sendo intensificado e chancelado cada vez mais. As cavernas agora são digitais. (Para conhecer um pouco mais sobre o mito da caverna de Platão leia o ensaio Obscurantismo Político e Educação.)
A previsão para esta tendência não é muito favorável. Em um futuro distópico a humanidade poderá viver sobre o controle e vigilância severa em ambientes tecnológicos que sufocam os espíritos, escravizam seu trabalho e o único alívio para as crises individuais serão substâncias entorpecentes sinteticamente desenvolvidas: um cenário possível e provável já apresentado na literatura universal em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. A humanidade já se viu violentada antes pelos desdobramentos da própria ciência moderna com as tecnologias bélicas (que possibilitaram o desenvolvimento de bombas atômicas) e se viu, também, obrigada a questionar seus pressupostos adentrando em um período perigoso que sugere diversos extravios. Desde então, passou a ter de contemplar constantemente o abismo da sua escravidão e própria aniquilação em massa.
